terça-feira, 5 de maio de 2015 12 comentários

Gnomas acerca da aflição


Ainda é cedo,
mas o dia já está perdido em tédio,
fadiga e desgosto.
À laia dos conjurados,
inquirimos o inexequível
: algo que dilua a angústia.
Cerceamos letalmente a vida
ao exigir extrair deleites de tudo
o que nos cerca –
                                    a comida deve ser orgástica;
                                    o amor, arrebatador;
                                    a arte, intensa.
Incutimos até num pedaço de pão
a obrigação de nos inundar de prazer.
Mercadejamos nossa felicidade
numa pletora de transações,
produtos de que nunca necessitaremos.

                                    E, entretanto, a alegria não virá
                                    dentro das sacolas de compras.

Os tratados da agonia,
com todo o peso de uma Alexandria queimada,
dizem que a alegria não é um estado de ser.
É uma ação,
é verbo e não um substantivo.
Inexiste involuntariamente de nossos atos.
Fugaz e transitória,
porque nunca se destinou a ser duradoura,
ela é o que nós fazemos.
Alegria é pagã, incoerente,
matizada de sensualidade e melancolia.
Não é o contraponto da aflição.
Esta é mais antiga, clássica, mal intrínseco
de que padecemos, a que nenhum medicamento
pode remediar, pois que não
proveniente de qualquer flagelo físico.
Como a barca do inferno, não poupa ninguém,
somos todos iguais perante a aflição.

Não existe lenitivo milagroso
para nossa consternação.
Ser humano é ser aflito.


sexta-feira, 3 de abril de 2015 16 comentários

Dos encargos


São
impostos,
tributos,
compulsórios,
taxas,
emolumentos,
tarifas,
dízimos,
contribuições,
percentagens,
comissões,
alíquotas,
juros,
multas,
pedágios,
fretes,
portes,
coletas.

E um só salário.
Mínimo.
 
domingo, 1 de março de 2015 16 comentários

Escrito


Às folhas tantas
do esboço, a palavra
acontece.


(Sem mais delongas,
sem nem saber
se te enfara
ou te apraz,
ela se instala).


Em súplica,
feito úlcera,


dói na página.


À deriva


nessa espuma de frases,
meu tempo é assim

consumido


numa caligrafia perplexa


no branco,


a escavar
abismos na fina
superfície da folha,

em busca do bálsamo
que vai

aliviar a agonia


daquela única


palavra.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015 16 comentários

Comercial de sabonete

)
O que há entre o nirvana e o nihil?
(

De tudo sobrou
trinta segundos de vídeo:
um ramalhete de flores
e as mãos dadas
em dimensão de lente.
Uma imagem vivaz,
uma forma de exultação,
uma figuração de prosperidade.
 

Achávamos que o futuro era
confiadamente nosso, um fato
consumado, dogma, uma verdade
absoluta. Só que, vezes sem conta,
o verdadeiro não é verossímil.

Por mais funda,
mais alcança esta certeza:
quem espera, corteja
a frustração das coisas
que jamais se realizam.
 

E naquele mísero meio minuto,
toda a fulguração de uma vida a dois,
quizílias e consonâncias.

Agora, há apenas uma rosa,
tardia e murcha
: os felizes estão no vídeo.


 
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