quarta-feira, 10 de dezembro de 2014 12 comentários

Epítetos (codinome eu)


Homem, amante, cônjuge,
parente, filho, pai,
irmão, vizinho, forasteiro,
ermitão, associado, condômino,
inquilino, habitante, intruso,
convidado, descendente, oriundo,
primo, tio, neto,
sobrinho, cunhado, genro,
visitante, acompanhante,
turista, cicerone, passageiro,
transeunte, carona, pedestre,
tripulante, parte, árbitro,
litisconsorte, eleitor, postulante,
testemunha, espectador, candidato,
acólito, freguês, consumidor,
paciente, cliente, herege,
celebrante, devoto, crente,
gentio, pecador, xamã,
leigo, perito, catecúmeno,
veterano, membro, colega,
participante, voluntário, subordinado,
proletário, trabalhador, empregado,
patrão, correligionário, súdito,
coadjuvante, professor, aluno,
leitor, ouvinte, remetente,
destinatário, vítima, signatário,
torcedor, ativista, plebeu,
cidadão, interiorano, proprietário,
contribuinte, representante, substituto,
padrinho, amigo, oponente,
adido, fiscal, emissário,
palestrante, autor, repórter,
notícia, figurante, sujeito...

O indivíduo, 
vulgo eu.

domingo, 23 de novembro de 2014 14 comentários

Moratória


Não me importa
se você vai demorar
: não tenho pressa.


domingo, 9 de novembro de 2014 10 comentários

Farol


Estendo-me pela praia até o mar,
meus raios abruptos sobre as ondas
enrugadas como papel molhado.
Empoleirado em meu pedestal de granito,
eu rutilo contra o desarranjo das estrelas,
esquadrinho marés conduzidas
pelas excentricidades da lua,
escavo brumas
que se sedimentam para dormir
sobre o arrulho das águas.
Enquanto a areia e o oceano serenam,
eu sou um sol rápido
: varro o horizonte num bater de pálpebras,
adentro janelas casualmente encortinadas,
resvalando nisso e naquilo,
meu lume suavizado
pelos desgastes e usos frequentes,
amortizado em formas e talhes.
Eu me estiro em luz,
mas nunca longe o bastante
: eu não toco seu sono.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014 10 comentários

Desacerto


Declaro para os devidos fins
que estou num daqueles dias
quando o bom do diálogo
é obrigar o outro a calar a boca.
Portanto, fique quieto,
escute com os olhos;
saiba o que os gestos contam.
Não colora o silêncio com gracejos –
algumas coisas são melhores vazias.
Viciaram a roleta e querem
que apostemos o futuro –
o maior prêmio é um orgasmo
e um holerite no final do mês.
Tudo é cilada, não se engane.
Eu tenho comigo essa fragrância da recusa,
esse ódio aos limites, às mentiras deferentes,
à impostura diária, ao tato.
Naquele nível de consciência irrelevante,
senatorial, onde as questões
que o desejo já respondeu são
debatidas e tabuladas até mais tarde,
escolhi o longo caminho do exemplo
ao atalho do conselho.
Seja por inteligência ou por cansaço,
parei de tentar encaixar o redondo no oval.
No entanto, é vão
: toda descoberta se deteriora numa certeza,
e toda ideia numa ideologia.
Já me vendem ali na esquina,
numa barraca de camelô,
o rebelde em pechincha,
dois por R$ 1,99.


 
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